2 de junho de 2005

E eu a gravar...

Já me tinham falado nela. O Venâncio contou-me que ela tinha um golpe no dedo e estava a usar um penso. Contou-me outras coisas, mas eu fixei-me apenas nesse aspecto. Durante dois anos não soube mais nada sobre ela. Não soube porque não quis. Preferi inventar uma história sobre ela. Tinha a certeza de era capaz de construir uma história verídica sobre ela apenas usando a minha imaginação.
Ela tinha uma infância terrível. Vivia reprimida com a disciplina familiar. Uma das suas brincadeiras favoritas era trancar a porta e evitar que o pai entrasse dentro de casa. Ela sabia que o seu pai ficava sempre furioso com a brincadeira. Pegava num gravador e começava a gravar os berros do pai. Ele era um pai extremamente nervoso e tinha o hábito de dizer muitas asneiras. Ela registava tudo em cassete e depois divertia-se a mostrar às pessoas do bairro o conteúdo da cassete para vergonha de todos lá em casa. Cada vez que o pai descobria uma nova cassete castigava-a com violência. Batia-a fortemente e deitava-a no chão de olhos vendados. Obrigava-a a ouvir uma cassete com o som do último castigo dado. Aos 17 anos ela sai de casa e vai viver com o namorado, um rapaz mais velho. Ele torna-se alcoólico e ela também. Ela engravida, sofre maus tratos do marido, ele engravida outras e ela volta para casa dos pais.
Passado dois anos combino um café com o Venâncio. Queria confirmar se tinha sido capaz de acertar. Começamos a dialogar.

Eu: Como é que ela está?
Venâncio: Ela está óptima.
Eu: Óptima??
Venâncio: Está para casar, trabalha, ganha bem e está muito bonita.
Eu: Porra, vai-te lixar!! Estás a estragar tudo. Depois de uma infância daquelas?! Ela tem que ter um parafuso mal apertado.
Venâncio: Qual má infância? Deves estar a falar de outra pessoa. Tu nem a conheces.
Eu: A primeira coisa que me contaste há dois anos era que ela tinha um golpe no dedo.
Venâncio: Sim, mas o golpe era pequeno. Mas contei outras coisas.
Eu: Sacana do pai! Foi por causa daquilo da cassete.
Venâncio: Qual cassete?
Eu: A cassete!! A cassete das asneiras dele.
Venâncio: O que estás a dizer?? Que história é essa?

Eu contei-lhe a história das cassetes e fingi que acreditava piamente naquela história só para irritá-lo. Ele ficou vinte minutos a insultar-me. Dizia que eu era doido, que eu estava a contar uma história e que não conseguia distinguir a minha imaginação da realidade.
Eu disse-lhe: “Ninguém me contou essa história mas eu sei que isso tudo é verdade. Sei que isso aconteceu e não me interessa mais nada!

Ele continuou a insultar-me, enervadissímo. E eu a gravar tudo sem ele saber.