3 de maio de 2009

Dia da Mãe. Crónica "As Mães"

Acho graça ao pedido clássico de mãe para irmos fazer-lhe um recado. Adoro a postura inata de guionista que uma mãe tem sem nunca ter estudado na New York Academy. Uma mãe não se contenta em dizer: "Olha, vai comprar 5 bolinhas, duas vianinhas e uma manteiga dos Açores". Um dia vou tentar perceber o fascínio que todos têm pelos produtos lácteos dos Açores, mas só quando for grande. Uma mãe é um Scorcese das tarefas quotidianas: "Olha, tens aqui 1 euro, vais à padaria, pedes para falar com a Dona Rosa e dizes "Boa tarde, minha senhora, a minha mãe pediu-me para vir cá buscar umas coisas. Queria 5 bolinhas, duas vianinhas e uma manteiga dos Açores, se faz favor". E depois podes ir comprar aquelas pastilhas que gostas com o que sobrar. Está vento, vai vestir a camisola que eu te coloquei em cima da tua cama". Este guião não se altera, quer uma pessoa tenha 6 anos, 16 ou 31 anos. A diferença está na interpretação do actor, nós. Com 6 anos nós respeitamos o guião, com 16 cortamos os pulsos quando olhamos para a camisola que a nossa mãe escolheu e aos 31 anos dizemos que não precisamos do dinheiro porque já temos uns trocos para comprar pão, damos aquele ar de "já ganho para mim, mãe, sou um homem, mãe".

Uma mãe tem a linha editorial da RTP Memória em relação aos nossos gostos. Temos 31 anos, gostamos de favas, mas a nossa mãe pensa que não gostamos de favas porque aos 5anos recusámos favas no jantar da tia Adozinda.

Eu tenho uma explicação para o facto de uma pessoa ter tanta dificuldade em arranjar um emprego. Não tem a ver com a crise nem com o excesso de concorrentes aos cargos nem é porque o nosso currículum não é bom. Porque é que enviamos 150 currícula, vamos a 3 entrevistas e não arranjamos nada? Porque as mães estão por trás disto. Elas topam, elas sabem para onde nós enviamos os C.V. As nossas mães têm empregadas avençadas nos CTT, meus amigos. Experimentem voltar a entrar na estação para onde enviaram o vosso currículum, que omite a vossa licenciatura para mais facilmente serem delegados de informação médica. O que é que vocês vão ver? A vossa mãe a receber um relatório da senhora dos Correios. E o que é a que a vossa mãe faz? Vai aos sítios ou telefona, pede para falar com uma Dona Rosa qualquer e diz-lhes: "Não contratem o meu filho! Ele é mais inteligente que a média, é certo, mas ele ainda é muito novinho, é imaturo, não está preparado para este mundo cão de competição e invejas, enerva-se muito com a pressão de não errar e amua regularmente quando alguém o corrige". E porque é que a vossa mãe faz isto? Porque ela pensa que vocês, tendo um emprego e começando a juntar algum, vão querer sair de casa, casar, ter uma vida independente e isso é o pior que pode acontecer a uma mãe. Uma mãe quer evitar até ao máximo a saída do filho de casa porque depois disso o que é que uma mãe vai fazer? Vai aproveitar para fazer amor desvairado 3 e 4 vezes por dia com o vosso pai usando o lugar que vocês ocupavam no sofá? Não, não vai. A saída do filho é o fim para uma mãe. É o fim para o pai porque já não vai haver ninguém para perceber que o comando da TV não funciona porque a última vez que colocaram uma pilha foi há dois anos, mas para ele o drama é pouco maior que esse.

Já foram a um casino? Estão a ver aquelas velhas que jogam Slot´s com uma mão enquanto seguram a mala vermelha com a outra? São habitualmente criticadas porque estoiram a reforma no jogo. Aquelas senhoras fazem isso porque o sacana do filho saiu de casa.

Vocês chateiam-se porque as vossas namoradas são desconfiadas, controlam o vosso telemóvel, tentam ver o histórico da net para saberem que sites que vocês visitam e tentam sacar as passwords do vosso e-mail. Elas não estão à procura de nada do que vocês pensam. As vossas namoradas também estão combinadas com as vossas mães, tal como as senhoras dos correios. Desde aquela reportagem sobre a Internet que deu na TVI que as nossas mães sabem que também já é possível enviar candidaturas a empregos pela Net.

Quando vocês virem a vossa mãe contente porque a vossa namorada está grávida tentem perceber a verdadeira razão da alegria dela. Uma mãe, melhor que ninguém, sabe o que acontece a um casamento depois do nascimento do primeiro filho. Um bebé quer dizer que falta só um bocadinho "assim" para o filhinho delas regressar a casa. Aquele número de "agora que ela está grávida, vocês vão ter que casar para evitar escândalos na vizinhança e tem que ser já, antes que se note a barriguinha dela durante a cerimónia", é uma tanga. Não há escândalo nenhum. Elas sabem que isso ainda vai apressar mais as coisas.

O mercado da rede fixa está dependente das mães. Reparem na factura detalhada da vossa mãe. Não liguem às chamadas para a ManPower, Remax e empresas que os rejeitaram. Vejam as outras chamadas. São quase todas para vocês, que novidade! Uma mãe tem vários motivos para telefonar para um filho. No Verão ligam para saber se usámos o factor 50 que ela nos ofereceu no Dia Mundial da Criança e para termos cuidado porque as noites do Algarve são ventosas. No Inverno elas esperam pelas 5 da tarde e começam a ligar para nós para quê? Para nos avisar do frio que entretanto se pôs e para se disponibilizarem a ir ao nosso local de trabalho para entregar uma camisola de lã oferecida no Dia Mundial da Criança para que possamos usá-la quando sairmos do trabalho para evitar uma pneumonia. Aqui as mães não usam todo o potencial desta situação. Se um filho não for avisado do enorme frio, vem para a rua com o pólo à beto que a namorada ofereceu no Dia Mundial da Criança, desculpem, no Dia dos Namorados, apanha uma constipação, falta uns dias e como está escrito no novo Código de Trabalho, aliás muito aplaudido por certas mães, é despedido e já não irá sair de casa porque não terá condições.