12 de novembro de 2008

Cada um dos três andares do prédio onde viveu Pessoa tem semelhanças com cada um dos seus heterónimos.

O 1º andar do número 12 da Rua Almirante Barroso está decadente como Álvaro de Campos. A ausência de utensílios confirma o espírito niilista de que ali não havia a ilusão de resolver algo com tão pouco. Foram encontrados dezenas de cinzeiros espalhados pela casa toda e perto de cada interruptor há um letreiro a dizer “podes acender a luz mas continuarás nas trevas”. A casa está de acordo com a incapacidade de estar bem em algum lado: os lavabos contêm janelas enormes, a televisão está colocada na única divisão em que não há tomadas e os telecomandos estão no quarto junto a um vídeo sem televisão. O 2º andar tem a sofisticação e o bom gosto de Ricardo Reis. Todos os móveis têm acabamento ebanizado. As portas são feitas em madeira de wengé e vão do chão ao tecto e os spots embutidos evidenciam as obras de arte helénica como uma coluna e uma estátua. O 3º andar tem o mau aspecto, a pobreza e o desprezo pelos livros e pelo intelecto característicos de Alberto Caeiro. Não tem luz para a leitura nem condições para armazenar livros. Todas as divisões têm uma saída para uma varanda que preenche a necessidade que Caeiro tinha de ver o mundo “simples e belo”. O material de leitura resume-se ao 24 horas e a revistas do social, para impedir que o pensamento possa tornar o mundo “complexo e problemático, onde tudo é incerto e obscuro”.